Não conheço a fundo os labirintos do poder, mas dele posso dar notícia no todo ou em parte, na simplicidade ou ignorância do que ele representa.
O poder se mistura com mandos e desmandos. E com estes as transgressões, mesmo sabedores do manda quem pode, obedece quem tem juízo, na expressão viva do sentimento doutrinário que norteia o Estado e seus princípios.
E por falar em juízo, melhor é não tentar medir força com quem, mediante toque de caixa ou caneta, muda a ordem das coisas para o bem ou para o mal.
Dito isso, no segmento de reta e no distanciar-se entre dois pontos quanto aos dois instantes, o fator a ser considerado no matematicamente correto é o fazer e o não fazer, o aceitar e o não aceitar.
No tocante à passividade de quem se julga estar por baixo, melhor é a reconsideração. Para que haja a predominância do poder, fundamental é que nos dois instantes também existam os vassalos ou os que se deixam levar pelas ondas não tão agradáveis do antigo sistema feudal, onde, nessa interdependência, havia súditos e soberanos. Aqueles que mandavam de forma absolutista e os que atendiam aos mandos, sem nenhuma restrição.
Nessa anomalia para uns e costumes até certo ponto sadios para outros, que estes escritos não deixem de lado os tentáculos do poder que mais cheira a ranço. E cheira igualmente a esfinge, embora em tempo algum tomei gosto em saber como é o cheiro da esfinge. Só me atenho ao antigo enigma a que se propunha a horrenda criatura aos viajantes: “Decifra-me ou te devoro”. Como as respostas eram insatisfatórias, os tentáculos ou unhas de harpia faziam o serviço mitologicamente correto.
Relegando a cultura grega a um plano secundário, existe uma questão simples. Entre fazer, deixar fazer ou omitir-se, a pior conduta é a de quem age na calada da noite. Sabe tudo, finge não saber e passa adiante a concepção de que aos outros pouco é dado a conhecer atitudes e planificações convenientes.
E afinal, os caminhos e descaminhos do poder agregam ao homem a caricatura de marionete ou fantoche, e o leva ao sabor dos ventos, numa correlação ao único romance da escritora britânica Emily Jane Brontë, leitura obrigatória em minha adolescência, cujo título é “O Morro dos Ventos Uivantes”. As analogias do corrupto, corruptor e corruptível são patéticas. Falar-se em imposição pela força ou a falsa magia de uma democracia capenga gera mal-estar.
Trata-se, com efeito, de uma atitude amparada por caracteres sintomáticos. Quem chega a conhecer o céu das paixões no seu esplendor, tudo movido ao vil metal, fama sabidamente passageira, posição social de aparentes brilhos e de repente ter de voltar ao estado de antes, à indiferença alheia, fatalmente vai cair no desânimo moral.
Se optarem por dizer: a carne é fraca e aos vermes chegará de forma inexorável, no beiral de estuque de uma casa que do tempo emana, é perfeitamente compreensível.
Com toda a sua pompa e glória, rei Salomão foi sábio, muito rico, formoso e mais que isso. Seu ponto fraco, no entanto, foi uma outra monarca dentre as mulheres de que dispunha: Rainha de Sabá. Linda, soberana e poderosa. Poder com poder não fizeram efeito. Deus não aprovou em razão da desobediência. E nem Sabá aprovou. Apaixonou-se pela sabedoria de Salomão. Tal qual a esfinge queria apenas respostas. A relação degringolou.
A que conclusão se chega? Se Salomão perdeu de um a zero para os lírios do campo, melhor sorte não teve e ficou à deriva ante a beleza de Sabá, embora pontes, palácios e projetos acabados e por acabarem restassem sucumbentes na fragilidade dos interesses de um poder que, tal qual Alexandre, o Grande, não chegou a concretizar-se na plenitude.
Em vez de falar-se em poder, poder e poder, melhor é buscar com sofreguidão a educação. Instrumento inventivo, criador e fomenta a capacidade humana num mundo tão exigente quanto são as perspectivas da alma reflexiva em evolução. Este é o desafio. Dá ares não poluentes de privado de renovação.
LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO (luizgfnegrinho@gmail.com), advogado, escreve aos domingos nesta coluna.