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    11/12/2013 00h00

    Tributo a Geraldo Viramundo

    Por Alberto Calixto Mattar Filho

    Alberto Calixto

    Um grande amigo, ao ir embora de Passos, deixou-me de presente uma dessas obras marcantes da literatura brasileira, O grande mentecapto, do consagrado escritor mineiro Fernando Sabino. Que ótimo! Em nossos bate-papos a respeito de livros durante a convivência que mantivemos, sempre trocávamos palavras e observações a respeito do que havíamos lido. E ele sabia que, por uma dessas inevitáveis lacunas no universo da leitura, eu ainda não havia penetrado as páginas de nenhuma obra de Fernando Sabino.

    A experiência foi esplêndida. Aqueles que leram O grande mentecapto provavelmente hão de concordar comigo que se trata de extraordinário relato. Sem dúvida, um dos clássicos da literatura brasileira do século XX.

    Informações da editora nos dão conta de que Fernando Sabino começou a escrevê-lo em 1946, aos 23 anos, como uma espécie de distração para a obsessão literária que o sufocava. Entretanto, preocupações de outra ordem o fizeram suspender a narrativa por anos, só vindo a recomeçá-la em 1979 após remexer velhas anotações pessoais.

    Foi então que, num só fôlego de 18 dias de trabalho, nos brindou com as peripécias desse grande mentecapto, que é, ninguém mais, ninguém menos, do que Geraldo Viramundo, por certo uma das personagens mais marcantes da história da nossa ficção literária.

    Difícil começar a ler a obra sem se deixar envolver por Viramundo. No capítulo III, o autor nos explica o porquê do exótico nome, que representa uma aglutinação entre o verbo virar e o nome mundo. Virar como remexer, girar, aventurar-se, perambular sem local fixo, movimentar-se por fronteiras diversas, causar estragos, deixar rastros, histórias e episódios por onde passava. Vale dizer que somente por cidades mineiras.

    De sua infância, no pequeno município de Rio Acima, região da Estrada Real em Minas, a suas insólitas incursões posteriores por cidades como Mariana, Ouro Preto, Barbacena, São João Del Rei, Uberaba, dentre outras, até desembocar finalmente em Belo Horizonte, a trajetória de Geraldo Viramundo assalta a cabeça do leitor, que, curioso, quer saber que fim terão as suas aventuras e desventuras, em que coexistem loucura, heroísmo, inocência, espontaneidade, companheirismo, coragem, tenacidade, senso de justiça, humor.

    Episódio após episódio, os atos de Geraldo Viramundo acarretam repercussões gigantescas, ainda que praticados quase sem intenção, muito mais em virtude de suas trapalhadas do que de seus objetivos. Afinal, não se esqueça do título: O grande mentecapto.

    Só mesmo o incrível talento do escritor Fernando Sabino, cujo centenário é comemorado agora em 2013 (out-1923/out-2004), torna possível que os tantos casos excêntricos que envolvem uma figura tão simplória ganhem suficiente complexidade para retratar as mazelas da conduta humana em geral.

    Pode-se dizer que a história de Geraldo Viramundo e suas atitudes aparentemente absurdas acabam por se transformar numa crítica implícita aos inúmeros absurdos cometidos diariamente pelas pessoas consideradas normais, ou, noutros termos, aquelas que estão dentro dos parâmetros de uma dita normalidade.

    Ao valer-se, portanto, da enorme sequência de situações hilárias e inusitadas oriundas de um herói maluco e atabalhoado, o autor, em brilhante impulso de criatividade literária, nos expõe quão tênue se torna, muitas vezes, a linha divisória entre loucura e razão.

    ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO (mattaralberto@terra.com.br)
     

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